terça-feira, 2 de outubro de 2012

A revolução na educação brasileira

A sala estava quase lotada. Era dia de reunião pedagógica no Centro do Saber, uma instituição pública que fica na cidade de Nova Aliança.

O diretor anuncia a pauta central e o tema que irá focalizar: “como podemos melhorar o ensino que oferecemos”. A linha de ensino adotada pelos professores, com exceção de Pedro Paulo, é sustentada na teoria tradicionalista.

É dado início à reunião e o Sr. Diretor vai logo cobrando resultados. Ele afirma que tem recebido muitas críticas dos pais em relação ao baixo rendimento apresentado pelos alunos. Ao que imediatamente é rebatido pelo professor Jonas que considera esse fato devido à falta de interesse. Logo, imediatamente, recebe o apoio dos demais colegas, menos o Pedro Paulo que preferiu não se manifestar.

A reunião prossegue, quando alguém a interrompe. É exatamente o pai de um aluno que, insatisfeito, quer saber por que o Joãozinho fora reprovado. Mais uma vez quem toma a palavra é o professor Jonas que taxativamente diz para o pai que ele não conhece o filho que tem. A discussão continua, mas ambos não chegaram a uma conclusão do baixo rendimento do aluno em evidência. O pai se retira mais insatisfeito ainda, e a reunião tem prosseguimento.

Em seu canto, sempre em silêncio, está o Pedro Paulo. Quem é essa figura tão simplória? Pedro Paulo é o professor mais novo na escola. Ele tem apenas três anos de conclusão de curso e menos de um ano no Centro do Saber. Ele é professor de língua portuguesa. Veio do interior de Pernambuco.

Pedro Paulo é inteligente, mas um tanto quanto pacato. Sua simplicidade o faz, às vezes, tímido. Os colegas, mais “experientes” e antigos, não o consideram muito. Por conseguinte, ele tem muita dificuldade de relacionamento e de execução de seu trabalho. Muito embora já tenha percebido que algo anda errado com o ensino naquela escola.

O tempo segue e as coisas na escola continuam do mesmo jeito. São as mesmas estratégias pedagógicas ano após ano. Em conversa discreta com um colega de mais tempo na escola, o professor Pedro Paulo toma conhecimento que há pelo menos sete anos as práticas pedagógicas são as mesmas no Centro do Saber. Em contato também com alguns alunos, ele percebe que muitos estão mal acostumados a seguir estritamente as orientações dos “mestres”, quando seguem, se é que seguem realmente. Diante dessa angústia que vai tomando conta desse simples professor, resolutamente decide que precisa fazer alguma coisa.

Certo dia, em uma coordenação pedagógica ordinária, resolve falar. Seu pronunciamento parte do ponto de que essas práticas de ensino adotadas são a causa do baixo rendimento dos alunos. Mas logo é interpelado, desta vez não pelo professor Jonas, mas pela professora Matilde da Glória, que ironicamente o taxa de ridículo tudo isso que o professor Pedro Paulo estar a defender (ele falava exatamente de trocar o estilo tradicional de ensino para a aprendizagem significativa).

Mas que é isso, professor Pedro Paulo, o senhor é apenas alguém com experiência mínima no ensino. Isso é fruto de um imaginário sonhador que não conhece a realidade de nossa escola. Nós há muito tempo que estamos fazendo assim e tem dado certo. Se alguns alunos reprovam é porque não estão interessados. Desta vez foi o Jonas que bradou.
Reuniões e mais reuniões iam acontecendo e sempre o professor Pedro Paulo era combatido em suas ideias de mudança. Cansado disso, decidiu que deixaria aquela escola. Era uma decisão muito séria a que estaria para tomar, mas era preciso. Não podia mais esperar.

Decisão tomada, decisão cumprida. No dia 22 de dezembro de 2000, o professor Pedro Paulo pela última vez leciona naquela escola. Ele finalmente parte em busca de novas propostas de ensino. Agora, desempregado, mas sonhador, nosso ilustre personagem parte para desenvolver uma acurada pesquisa sobre educação. Dia-a-dia ele em seu micro navegava pelos mais diversos sites que falassem de educação. Após muita dedicação em sua pesquisa, ele percebe que o ensino a distância tem crescido assustadoramente. São muitas as escolas, em todo o mundo, que estão oferecendo essa modalidade de ensino online. No Brasil há também. Mas comparado a outros grandes centros internacionais, somos muito modestos.

Ele então tem um verdadeiro Insight. Percebe claramente que essa nova modalidade de ensino irá dominar todo o mercado educacional em pouco tempo. Animado pela sua descoberta, continua visitando vários portais para melhor entender esse sistema de ensino. Em determinado site que visita, percebe que há uma boa procura pelos cursos. Noutro, há uma boa diversidade de cursos oferecidos. Tudo isso o deixa simplesmente fascinado.

Passam-se aproximadamente seis meses desde o dia em que o Pedro Paulo deixara o Centro do Saber e cinco meses e vinte dias de sua pesquisa sobre educação. Após todo esse tempo, estudando acirradamente, muito ele aprendeu. Conheceu muitas tecnologias informatizadas para proporcionar um ensino mais eficiente e prazeroso. Dentre as suas muitas descobertas, ele percebeu que é possível tornar uma sala virtual muito próxima da realidade de uma sala tradicional, presencial, e que a tecnologia informatizada muito teria a contribuir em suas aulas presenciais. Isso lhe valeu o seu primeiro emprego depois que deixou a antiga escola.

Ele agora estava lecionando em uma escola que atuava nas duas modalidades de ensino: 70% presencial e 30% virtual. Estava gostando da nova casa, mas após 3 anos, fora demitido. A partir daí enfrentou muitas dificuldades. Talvez porque agora estava muito dividido entre o ensino presencial e virtual. Sempre otimista, buscava uma nova colocação.

Certo dia, tomou conhecimento de que uma escola internacional estava ministrando um curso completo para EAD (educação a distância), mas como pré-requisito, tinha de saber inglês fluentemente. Perdera a vaga, pois sabia apenas parcialmente. No entanto, não desistiu. Matriculou-se em uma escola de inglês virtual. Fora sua primeira experiência como aluno em um curso totalmente online. Ao ingressar no curso, muitos o taxaram de louco. Não irá aprender nada, disseram. Ledo engano. Ele aprendeu, e muito bem. Tanto é verdade que fora convidado por uma empresa internacional para um estágio remunerado por um período de um ano.

Terminado o estágio e agora com um certificado reconhecido internacionalmente. Partiu para novos desafios. Ele agora não era apenas um professor sem experiência, como o taxavam seus antigos colegas do Centro do Saber. Na bagagem profissional nada mais que: graduação em Letras – Habilitação Português/Inglês, pós-graduação em Linguistica Aplicada e Docência do Ensino Superior, Curso de Inglês intensivo oferecido pela Escola Novos Tempos, sediada no Brasil e Estados Unidos, experiência de ensino no Brasil e Estados Unidos, com passagem temporária também pelo Canadá e Nova Zelândia.

Depois de idas e vindas, altos e baixos, o professor Pedro Paulo é convidado por uma escola nos Estados Unidos para cursar gratuitamente o doutorado em Ciências da Educação, uma indicação de seu antigo diretor e amigo da Escola Novos Tempos.

No curso de doutorado, novas amizades, novas descobertas. A convite de um colega de curso, formam uma parceria para uma nova empreitada. A criação do primeiro Centro Internacional de Educação a Distância – CIEA – dentre os cursos oferecidos está o de Psicologia Aplicada a Educação. Após quase dez anos nos Estados Unidos, agora doutor em educação e empresário renomado decide voltar ao Brasil e visitar a antiga escola Centro do Saber. Para isso, recebe todo incentivo e apoio de seus colegas do CIEA.

De volta ao Brasil, o professor Pedro Paulo, assim gostava que o chamassem, faz uma visita ao Centro do Saber. A sala de reunião é a mesma. Tudo no mesmo lugar, uma poucas mudanças no quadro de pessoal.

Ansioso para contar tudo o que descobrira, procura o professor Jonas e a professora Matilde da Glória. Fala-lhes das muitas descobertas e que estaria disposto a ajudá-los. Aproveitando a ocasião da reunião naquele dia fala a um número aproximadamente de 22 professores. Que decepção! Eles não deram crédito ao doutor Pedro Paulo. Na verdade, riram-se dele. Não valorizaram todo seu aprendizado.

Ainda desejoso de ajudar, resolve procurar o diretor. Este convoca reunião com todos os professores para a próxima quarta-feira em que permitiria que Pedro Paulo fizesse uma exposição de motivos.

Desta vez, mais eufórico e enfático. O doutor Pedro Paulo faz uma exposição bem ordenada de tudo que descobrira e das novas possibilidades para o ensino. Em sua fala ele deixa bem claro que a educação virtual, em pouco tempo, dominará o mercado educacional e quem não estiver preparado, simplesmente deixará de ensinar, perderá definitivamente o seu espaço.

Gargalhadas sonoras ecoam por toda a sala. Parece até um coro musical ensaiado para aquela ocasião. Outra grande decepção sofrera o humilde professor Pedro Paulo, que jamais ostentou o título de doutor. Em seguida, o diretor o rejeita e o critica. Isso é coisa dos Estados Unidos. No Brasil, jamais a educação presencial deixará de existir. Sempre foi assim. Por que razão haveria de mudar. Faça-nos o favor, professor Pedro Paulo, de não mais nos ocupar com essas teorias tolas. Por favor, deixe-nos em paz. Você não serve para trabalhar conosco.

Com o coração dolorido por não poder ajudar aos seus antigos colegas de profissão, o doutor Pedro Paulo volta em definitivo para os Estados Unidos onde retoma suas atividades no CIEA. Desta vez, é recebido com bastante cortesia.

O tempo passa e a cada ano o CIEA vai ganhando mais espaço no cenário mundial, ou melhor, virtual. Em quase toda parte do mundo se ouve falar no CIEA. O doutor Pedro Paulo torna-se conferencista internacional e diretor-presidente do CIEA, sendo constantemente convidado para ministrar palestras em praticamente todas as grandes metrópoles internacionais.

No Brasil, o governo começa a aderir ao sistema de ensino virtual. Muitas escolas particulares já disponibilizam cursos cem por cento online. Novas tecnologias de informatização são implantadas. A cada dia o número de computadores interligados à grande rede virtual aumenta. O Intercâmbio entre escolas de diferentes nacionalidades cresce a passos gigantescos. A língua portuguesa, devido ao avanço da tecnologia informatizada no Brasil, passa a ser o primeiro idioma mais falado no mundo.

Praticamente, em todo parte tem alguem que domina o nosso idioma. Cursos em Língua Portuguesa são oferecidos a todo o mundo. A formação de professores passa a ser a grande preocupação e investimento do governo brasileiro. Ser professor no Brasil, representa agora status internacional. O menor salário pago a um professor, no Brasil, ultrapassa a cifra de 50 mil reais. O professor passa a ter tratamento com honraria.

Estes são os novos tempos. Ano de 2030 em que a tecnologia de informação propagou o Brasil aos quatro cantos do mundo. Somos referência mundial em educação e informatização. Somos um país que impõe respeito lá fora e orgulho de nossa gente.

O CIEA – Centro Internacional de Educação a Distância tem sua sede transferida para o Brasil. Seu diretor-presidente continua sendo o doutor Pedro Paulo. Sua força de vontade, seu dinamismo, e, principalmente, seu amor ao semelhante o tornaram um líder de referência internacional. Convidado a ser ministro de Educação do Brasil, assim o respondeu: “Em nosso país temos gente nova muito mais capaz que eu, demos, portanto, preferência a esses novos talentos”.

Ah! Você quer saber o que aconteceu ao Centro do Saber? Como fora previsto pelo doutor Pedro Paulo, deixou de existir. Em seu lugar fora criado um museu que retrata a história de um povo que não estava preparado para as mudanças. O guardião desse museu é o antigo professor Jonas. A servidora de limpeza é..., sim, a ex-professora Matilde da Glória. Quanto ao senhor diretor, dizem que ele mora de favor em um asilo para velhos. Ainda está lúcido, mas muito deprimido, acreditando que o antigo sistema de ensino vai voltar.


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